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Tratamento de silêncio: o que é, por que acontece e como responder

Tratamento de silêncio no relacionamento: exemplos, a diferença entre castigar e precisar de uma pausa, como responder e quando vira violência psicológica.

Escrito pela equipe do Venna Atualizado em · 7 min de leitura

Tratamento de silêncio é quando, no meio de uma briga ou depois dela, a pessoa para de falar com você. Ela não responde, olha para o celular, sai do cômodo ou passa dias calada, e você fica falando com a parede. Às vezes é um jeito de castigar. Muitas vezes vem de uma pessoa tão sobrecarregada que não consegue continuar a conversa. Nos dois casos dói, e se acontece a cada desentendimento, nada se resolve.

Também se fala em lei do gelo, “dar gelo”, tratamento do silêncio ou castigo do silêncio. Em inglês, o termo mais próximo é stonewalling, algo como “se fechar feito um muro”.

O que é o tratamento de silêncio

O termo stonewalling é muito associado ao psicólogo John Gottman e ao Gottman Institute, nos Estados Unidos. O instituto descreve o comportamento como o momento em que quem deveria escutar “se retira da interação”, se fecha e deixa de responder a quem está falando. Ele faz parte do que Gottman chama de Quatro Cavaleiros, junto com a crítica, o desprezo e a defensividade. Segundo as pesquisas do instituto, esses jeitos de brigar podem prever o fim de um relacionamento. Os outros três aparecem no nosso guia sobre brigas de casal.

Ser uma pessoa calada não é dar gelo em ninguém. Precisar pensar antes de responder também não. O problema começa quando um dos dois sai da conversa enquanto o outro ainda está nela, sem dizer por que nem por quanto tempo.

Exemplos de tratamento de silêncio

  • Você explica o que te chateou, e ele continua olhando a TV como se você não estivesse ali.
  • As respostas viram “tá”, “sei”, “tanto faz”. Depois, nada.
  • Ela sai de casa no meio da discussão e não diz quando volta.
  • Todo assunto sobre dinheiro, ou sobre a mãe dele, termina no mesmo lugar: ninguém fala mais nada.
  • A briga acaba, mas ele passa dois, três dias sem falar com você, até você pedir desculpa ou fingir que nada aconteceu.
  • Ela visualiza a mensagem no WhatsApp e não responde, de propósito, durante horas.

Se é você quem fica em silêncio, talvez nada disso pareça um castigo. Pode parecer que não sobrou nada para dizer, ou que qualquer palavra vai piorar as coisas.

Por que as pessoas se calam

O Gottman Institute liga esse silêncio ao que chama de inundação (flooding, em inglês). Quem se fecha costuma estar fisicamente sobrecarregado: o coração acelera, o corpo libera hormônios do estresse e pode até entrar no modo de luta ou fuga. Nesse estado, fica difícil escutar ou pensar direito. Calar vira um jeito de fazer aquilo parar, mesmo que de fora pareça frieza.

O instituto também conta que, entre as pessoas que reagiam assim no laboratório de Gottman, o Love Lab, 85% eram homens. Mas qualquer um pode fazer isso.

Isso não justifica o silêncio, mas ajuda a entender por que insistir, levantar a voz ou ir atrás da pessoa pela casa costuma piorar tudo.

Castigo do silêncio ou precisar de uma pausa?

De fora, as duas coisas podem parecer iguais: alguém para de falar e sai. A diferença é se o outro sabe o que está acontecendo e quando a conversa volta.

Castigo do silêncioPedir uma pausa
Silêncio ou saída sem explicação“Preciso de uma pausa, agora não consigo te ouvir direito.”
Ninguém sabe se a conversa volta, nem quandoTem hora para voltar: “depois do jantar”, “daqui a uma hora”
O outro fica sozinho com a brigaOs dois sabem o que está rolando
O assunto morreO assunto volta
Acaba quando o outro cedeAcaba quando os dois estão mais calmos

O Gottman Institute sugere uma pausa de pelo menos 20 minutos, que é mais ou menos o tempo que o corpo leva para se acalmar. Nesse intervalo, ajuda fazer sozinho alguma coisa que te acalme, como caminhar ou ler, em vez de ficar remoendo a briga e ensaiando a resposta.

Como pedir uma pausa em vez de sumir

Se é você quem trava, avise antes de se calar. Algo como: “Não estou conseguindo conversar. Quero falar disso, mas não agora. Volto daqui a meia hora.” Você diz que precisa parar e também diz quando volta.

Depois, volte mesmo. Se a pausa vira sumiço, o outro aprende que “preciso de uma pausa” quer dizer “esquece esse assunto”.

Vale combinar isso num dia tranquilo, longe de qualquer briga. Escolham uma palavra ou um gesto que signifique “pausa” e prometam respeitar esse sinal.

Como responder ao tratamento de silêncio

Escolha um momento calmo, não o meio da briga. Depois, tente algumas destas ideias:

  • Fale do que acontece, não de quem a pessoa é. “Quando a gente discute sobre dinheiro, você para de responder e vai para o quarto, e eu fico sem saber o que fazer com isso” funciona melhor do que “você sempre me ignora”.
  • Pergunte como é para o outro. Tem gente que se cala porque fica sobrecarregada e não sabe dizer isso. Pergunte o que o outro sente no corpo quando uma briga começa.
  • Vá mais devagar. Comece as conversas difíceis com calma e fale de um assunto por vez. Uma lista inteira de reclamações tem mais chance de travar o outro.
  • Não corra atrás. Mandar dez mensagens seguidas ou bater na porta do banheiro raramente traz a pessoa de volta. Se for escrever, mande uma mensagem só: “Quando der para conversar, me avisa. Pode ser hoje à noite?”
  • Diga até onde você aguenta. “Eu espero você se acalmar, mas não vou passar três dias sem saber o que está acontecendo.”

Se nada disso muda o padrão, um psicólogo ou terapeuta de casal pode ajudar os dois a entender o que está por trás. Se você tem medo da reação do outro, leia antes a parte logo abaixo.

Quando o silêncio vira violência psicológica

Segundo o Gottman Institute, quem se fecha numa briga geralmente está sobrecarregado. Às vezes, porém, o silêncio é usado de propósito: para castigar, para fazer você pedir desculpa pelo que não fez ou para controlar o que você pode ou não dizer.

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) protege mulheres contra a violência doméstica e familiar, em qualquer relação íntima de afeto, mesmo sem morar junto. No artigo 7º, inciso II, ela define violência psicológica como qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima, ou que vise “degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões”, por meios como ameaça, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante e chantagem.

O silêncio sozinho nem sempre se encaixa nisso. Mas vale se perguntar: o silêncio só acaba quando você cede? Você tem medo de tocar em certos assuntos? Ele vem junto com outras formas de controle, sobre o seu dinheiro, o seu celular ou as pessoas que você vê? Se a resposta for sim, o problema vai além do jeito de brigar, e a ajuda de que você precisa é outra. Os contatos de ajuda estão no fim deste texto.

Perguntas para conversar a dois

  1. O que você sente no corpo quando a gente começa a discutir?
  2. Quando você para de falar, o que passa pela sua cabeça?
  3. O que eu faço que te faz travar na conversa?
  4. Que palavra a gente pode usar quando um dos dois precisar de uma pausa?
  5. Quanto tempo você costuma precisar antes de conseguir voltar ao assunto?

Para outras ideias de conversa, veja as nossas perguntas para casal.

Conversar com um casal que já passou por isso

No Venna, vocês dois conversam por uma hora, por voz, com outro casal que está vivendo algo parecido ou que já passou por isso. Vocês escolhem um tema, como comunicação. Ninguém usa o nome verdadeiro, e a sessão só acontece se os quatro toparem. O app faz as perguntas e dá a vez para cada um, o que ajuda quando um dos dois costuma se calar. Cada casal conta o que viveu, em vez de dar conselho. Nada é gravado, a não ser que os quatro escolham uma sessão gravada com um casal experiente, e nenhuma IA escuta.

O Venna não é terapia. Se o silêncio parece castigo ou controle, ou se você tem medo da reação do seu parceiro ou da sua parceira, procure ajuda. Se você é mulher, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, todos os dias. Também dá para falar pelo WhatsApp (61) 9610⁠-⁠0180. Em emergência, qualquer pessoa pode ligar 190. Se você é LGBTQIA+, também pode denunciar violência pelo Disque 100, gratuito e 24 horas. Se você está pensando em suicídio, ou alguém próximo está, ligue 188, do CVV: o atendimento é 24 horas e sem custo de ligação.

Fontes

Perguntas frequentes

O que é stonewalling?

É o termo em inglês mais próximo de tratamento de silêncio, algo como “se fechar feito um muro”. O Gottman Institute descreve o comportamento como o momento em que quem deveria escutar se retira da interação e deixa de responder. Ele faz parte dos Quatro Cavaleiros de John Gottman, junto com a crítica, o desprezo e a defensividade.

Por que a pessoa se cala no meio da briga?

O Gottman Institute liga esse silêncio à inundação emocional: o coração acelera, o corpo libera hormônios do estresse e fica difícil escutar ou pensar direito. Calar vira um jeito de fazer aquilo parar, mesmo que de fora pareça frieza. Entre as pessoas que reagiam assim no laboratório de Gottman, 85% eram homens, mas qualquer um pode fazer isso.

Qual a diferença entre lei do gelo e pedir um tempo?

No castigo do silêncio, a pessoa sai sem explicar, ninguém sabe quando a conversa volta e o assunto morre. Na pausa, ela avisa que precisa parar e diz quando volta, por exemplo “daqui a uma hora”. O Gottman Institute sugere uma pausa de pelo menos 20 minutos, usando o tempo para se acalmar, e não para ensaiar a resposta.

Como reagir quando meu namorado ou marido me dá gelo?

Escolha um momento calmo e fale do que acontece, não de quem a pessoa é. Pergunte o que o outro sente no corpo quando uma briga começa. Não corra atrás com dez mensagens seguidas: mande uma só, como “Quando der para conversar, me avisa”. E diga até onde você aguenta, por exemplo que não vai passar três dias sem saber o que está acontecendo.

Tratamento de silêncio é violência psicológica?

Nem sempre. Mas a Lei Maria da Penha inclui na violência psicológica condutas que buscam controlar as ações e decisões da mulher, como manipulação, isolamento e chantagem. Se o silêncio só acaba quando você cede, se você tem medo de tocar em certos assuntos ou se ele vem junto com controle do seu dinheiro ou do seu celular, o problema vai além do jeito de brigar. Se você é mulher, o Ligue 180 é gratuito e funciona 24 horas.

Eu sou quem fica em silêncio. Como mudar?

Avise antes de se calar, algo como “Não estou conseguindo conversar agora. Volto daqui a meia hora”. Depois, volte mesmo, senão o outro aprende que pausa quer dizer esquecer o assunto. Num dia tranquilo, combinem uma palavra ou um gesto que signifique pausa. Se o padrão não muda, um psicólogo ou terapeuta de casal pode ajudar.

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