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História de casal

“Acho que te perdoei. Mas ainda não confio em você.”

Traição tem perdão? Uma história contada pelos dois e o que dizem as pesquisas

Traição tem perdão? Para alguns casais sim, para outros não, e as duas escolhas são legítimas. Uma história contada pelos dois e o que dizem as pesquisas.

Escrito pela equipe do Venna Atualizado em · 6 min de leitura
O que houve
Colega da academia
Como soube
Mensagem no celular
Desde então
Quase dois anos
Hoje
Juntos

História ilustrativa: nomes e detalhes inventados a partir de situações comuns.

A seguir, a história de Camila e Thiago, contada por um e depois pelo outro.

Camila e Thiago, cada um na sua vez

Camila

Foi num domingo, depois do almoço na casa da minha mãe. O Thiago tinha ido buscar o carro e deixou o celular carregando na cozinha. Chegou uma mensagem, a tela acendeu e eu li sem querer. Era uma colega da academia. Pelo tom, não era a primeira conversa. Fiquei olhando para aquele celular uns cinco minutos, sem coragem de pegar.

Thiago

Ela não falou nada no carro. Em casa, me mostrou a tela e perguntou: “Desde quando?” Eu disse que não era nada, que a gente só conversava. Era mentira. Já tinha acontecido algumas vezes, desde o começo do ano. Contei tudo dois dias depois, e acho que esses dois dias pesaram quase tanto quanto o resto.

Camila

Na primeira semana, eu tinha certeza de que ia terminar. Já tinha até pensado onde ia morar. Minha irmã dizia “traição não tem perdão, sai dessa”. Uma amiga dizia “todo homem faz isso, segura o seu casamento”. As duas falavam como se soubessem da minha vida melhor do que eu.

Thiago

Cancelei a academia e mandei uma mensagem para ela encerrando tudo, com a Camila do lado. Não resolveu nada, mas pelo menos ela parou de me perguntar se eu ainda falava com a mulher. O que eu demorei para entender foi que pedir desculpa não bastava. Quando ela fazia a mesma pergunta pela décima vez, eu me irritava, e toda vez que eu me irritava, a gente andava para trás.

Camila

Eu não sabia se queria perdoar. Sabia que não queria decidir com raiva. Um dia ele me perguntou: “Você vai me perdoar?” Respondi que não sabia e que ele ia ter que aguentar não saber. Foi a primeira conversa honesta que a gente teve.

Thiago

Ela pediu tempo para pensar, sem prazo. Eu tinha medo de que, a qualquer momento, ela chegasse em casa e dissesse que ia embora. E ela podia ter feito isso. Eu ia entender.

Camila

Uns oito meses depois, falei para ele: “Acho que te perdoei. Mas ainda não confio em você.” As duas coisas eram verdade. Hoje faz quase dois anos. A gente ficou junto, mas não porque traição “sempre tem perdão”. Ficamos porque, no nosso caso, valeu a pena tentar. Conheço uma mulher que passou por coisa parecida, terminou e está muito bem. Para ela, foi o certo.

Então, traição tem perdão?

A história de Camila e Thiago termina com os dois juntos, mas poderia ter terminado de outro jeito sem ser um fracasso.

Perdoar e continuar juntos são decisões diferentes. Dá para perdoar e terminar, e dá para continuar junto ainda no meio do caminho do perdão. Nem “traição não tem perdão” nem “todo casal passa por isso” respondem o que vocês estão vivendo. Terminar não é sinal de fraqueza, e ficar, por si só, não é falta de amor-próprio.

O tempo também muda de pessoa para pessoa. Camila precisou de meses para saber o que sentia. Tem gente que sabe em uma semana.

Se vocês decidirem tentar, o guia sobre como perdoar traição fala do lado prático: o que ajuda a reconstruir a confiança, o que atrapalha e quando procurar ajuda.

O que dizem as pesquisas

O Greater Good Science Center, da Universidade da Califórnia em Berkeley, resume como os psicólogos costumam definir o perdão: uma decisão de abrir mão do ressentimento e da vontade de vingança. Perdoar não é esquecer, não é achar que o que aconteceu foi aceitável e não obriga ninguém a reatar.

Em 1998, os psicólogos Kristina Coop Gordon e Donald Baucom descreveram o que é perdoar uma traição no casamento: um processo em três etapas, parecido com a reação a um trauma. Para eles, perdoar é chegar a uma visão realista da relação, deixar de ser controlado pela raiva que sente do outro e ter menos vontade de puni-lo.

E os casais que tentam? Num estudo com 134 casais em terapia nos Estados Unidos, 19 tinham passado por uma traição. Eles começaram mais abalados que os outros, mas os casais em que a traição foi revelada antes ou durante a terapia melhoraram mais na satisfação com a relação do que os outros casais (Atkins e colegas, 2005). Na Alemanha e na Áustria, 145 casais em terapia que tinham uma traição entre os problemas começaram mais abalados e com mais sintomas de depressão que os outros 385 casais. Continuaram melhorando até seis meses depois do fim do tratamento e, nessa época, estavam no mesmo nível dos outros (Atkins e colegas, 2010).

Perdoar também nem sempre faz bem. Uma revisão de quatro estudos que acompanharam casamentos ao longo do tempo mostrou que o perdão estava ligado a uma relação melhor nos casamentos saudáveis, mas a uma relação pior nos casamentos com problemas mais sérios (McNulty e Fincham, 2012). Ou seja: perdoar, por si só, não salva uma relação que já estava mal.

Perguntas para se fazer antes de decidir

Não há resposta certa. As perguntas servem para você descobrir o que quer, separado do que a família e os amigos acham:

  1. Se ninguém fosse ficar sabendo da minha decisão, o que eu faria?
  2. Antes da traição, eu estava feliz nessa relação?
  3. Quando imagino a gente junto daqui a dois anos, o que eu sinto? E quando imagino a gente separado?
  4. Quem me traiu está assumindo o que fez ou tentando minimizar?
  5. Já aconteceu antes? O que mudou desde então?
  6. O que mais pesa na vontade de ficar: o que eu quero, o medo, os filhos, o dinheiro ou o que os outros vão dizer?
  7. Se eu terminar, consigo me imaginar bem? E se eu ficar?

Conversar com outro casal que já passou por isso

No Venna, vocês dois conversam por uma hora, por voz, com outro casal que está vivendo algo parecido ou que já passou por isso. Confiança é um dos temas que vocês podem escolher no app. O app faz as perguntas e dá a vez para cada um falar. Ninguém usa o nome verdadeiro, e a sessão só acontece se os quatro toparem. Cada casal conta o que viveu, em vez de dar conselho. Nada é gravado, a não ser que os quatro escolham uma sessão gravada com um casal experiente, e nenhuma IA escuta.

O Venna não é terapia e não é indicado se o caso ainda continua. Nesse caso, o melhor é procurar um psicólogo, e vale também ler sobre terapia de casal. Se você é mulher e a descoberta veio junto com ameaça, controle ou violência, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, todos os dias, também pelo WhatsApp (61) 9610⁠-⁠0180. Em qualquer emergência, ligue 190. Se você é homem ou LGBTQIA+ e sofre violência, o 190 vale para você também, e pessoas LGBTQIA+ podem denunciar pelo Disque 100, gratuito e 24 horas. Se você está pensando em suicídio, ou alguém próximo está, ligue 188, do CVV: o atendimento é 24 horas e sem custo de ligação.

Fontes

Perguntas frequentes

Perdoar uma traição é a mesma coisa que voltar com a pessoa?

Não. Perdoar e continuar juntos são decisões diferentes. O Greater Good Science Center, da Universidade da Califórnia em Berkeley, resume o perdão como a decisão de abrir mão do ressentimento e da vontade de vingança. Isso não obriga ninguém a reatar.

Quanto tempo leva para perdoar uma traição?

Muda de pessoa para pessoa. Tem gente que sabe o que sente em uma semana, e tem gente que precisa de meses. Na história ilustrativa do artigo, Camila levou uns oito meses para dizer que tinha perdoado, e ainda não confiava no Thiago.

Casal que passou por traição consegue se recuperar?

Nos poucos estudos sobre o tema, os casais que fizeram terapia depois de uma traição melhoraram com o tempo. Na Alemanha e na Áustria, 145 casais com traição entre os problemas começaram mais abalados que os outros 385, mas continuaram melhorando até seis meses depois do fim do tratamento e chegaram ao mesmo nível. Num estudo americano, os casais em que a traição foi revelada antes ou durante a terapia melhoraram mais na satisfação com a relação.

Perdoar sempre faz bem para o relacionamento?

Nem sempre. Uma revisão de quatro estudos que acompanharam casamentos ao longo do tempo mostrou que o perdão estava ligado a uma relação melhor nos casamentos saudáveis, mas a uma relação pior nos casamentos com problemas mais sérios (McNulty e Fincham, 2012). Perdoar, por si só, não salva uma relação que já estava mal.

Fui traída e não sei se termino ou fico. Como decidir?

Não há resposta certa, e vale separar o que você quer do que a família e os amigos acham. Pergunte a si mesma o que faria se ninguém fosse ficar sabendo da decisão, se estava feliz antes da traição e se quem traiu está assumindo o que fez ou minimizando. Pense também no que mais pesa na vontade de ficar: o que você quer, o medo, os filhos, o dinheiro ou o que os outros vão dizer.

E se a traição veio junto com ameaça ou violência?

Se você é mulher, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, todos os dias, também pelo WhatsApp (61) 9610⁠-⁠0180. Em qualquer emergência, ligue 190. Se você é homem ou LGBTQIA+ e sofre violência, o 190 vale para você também.

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