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Como perdoar traição: o que ajuda, o que atrapalha e quando procurar ajuda

Como perdoar traição: perdão e confiança são coisas diferentes, o que quem traiu pode fazer para reconstruir e quando procurar terapia de casal.

Escrito pela equipe do Venna Atualizado em · 8 min de leitura

Se você está procurando como perdoar traição, talvez ainda esteja no meio do furacão, querendo entender tudo num dia e não querendo saber de mais nada no outro. Perdoar não é obrigação e não tem prazo. Aqui você encontra o que pesquisadores que acompanham casais depois de uma traição observaram, e quando vale procurar um profissional.

Primeiro: você não precisa decidir agora

Logo depois de descobrir uma traição, muita gente sente que tem que escolher na hora: perdoar ou terminar. Tem sempre alguém dizendo que “traição não tem perdão” e outro dizendo que “todo casal passa por isso”. Nenhum dos dois conhece a sua história.

Os psicólogos norte-americanos Kristina Gordon, Donald Baucom e Douglas Snyder, que criaram um tratamento específico para casais depois de uma traição, comparam a reação de quem foi traído à reação a um trauma. Segundo eles, quem foi traído costuma passar de um sentimento a outro: raiva, vergonha, tristeza, impotência, sensação de abandono. Muitas vezes, sente que não conhece mais a pessoa com quem vive. Tomar uma decisão definitiva nesse estado é difícil. Por isso, nessa primeira fase, eles recomendam que você cuide de si: comer, dormir, ter com quem conversar. A decisão pode vir depois.

Algumas perguntas para se fazer, sem pressa:

  • Eu quero mesmo tentar, ou é o medo de ficar só que está decidindo?
  • O que eu preciso saber para conseguir pensar nisso?
  • O que eu preciso ver da outra pessoa, na prática, para ter vontade de continuar?

Perdoar não é a mesma coisa que confiar de novo

Nos modelos de perdão que esses pesquisadores usam, perdoar envolve três coisas: enxergar a pessoa e o que aconteceu com mais clareza, sentir menos raiva dela com o tempo e abrir mão de continuar punindo.

Nada disso significa achar que o que aconteceu foi aceitável. Os mesmos autores contam que muitos casais travam porque acham que perdoar é sinal de fraqueza ou um jeito de dizer “tudo bem”. Dá para perdoar e, ao mesmo tempo, continuar cobrando que a pessoa assuma o que fez.

Também dá para perdoar e terminar. Os autores escrevem com todas as letras: o perdão não exige reconciliação. Tem casal que passa por todo esse processo e decide se separar, só que com menos raiva um do outro. Em traição tem perdão?, um casal conta, cada um na sua vez, como foi decidir.

Já a confiança não volta por decisão. Ela volta com o que a pessoa faz, repetido ao longo do tempo, e é perfeitamente possível perdoar e ainda não confiar.

Como perdoar uma traição: três fases

Gordon, Baucom e Snyder descrevem o perdão depois de uma traição em três fases:

  1. Lidar com o impacto. O choque, as brigas, as noites sem dormir. Nessa fase, o casal precisa de algumas regras para não se machucar mais: quando falar da traição, por quanto tempo e como fazer uma pausa quando a conversa sai do controle.
  2. Entender por que aconteceu. O que estava acontecendo na relação, no trabalho, na vida de quem traiu. Entender o porquê não justifica nada, mas ajuda os dois a saber com o que estão lidando.
  3. Seguir em frente. Juntar o que vocês entenderam, conversar sobre o perdão e decidir se a relação faz bem para os dois.

Os autores avisam que essas fases não andam em linha reta. Um detalhe qualquer (um número desconhecido no celular, um restaurante onde a pessoa que traiu esteve com quem teve o caso) pode trazer tudo de volta, como um flashback. Isso não quer dizer que vocês voltaram à estaca zero.

O que ajuda quem traiu a reconstruir

Se foi você quem traiu e quer ficar, o peso maior da reconstrução é seu. Os terapeutas Stephen Fife, Gerald Weeks e Jessica Stellberg-Filbert, que propuseram um modelo de perdão para casais depois de uma traição, dizem que esse caminho depende de quatro atitudes: empatia, humildade, compromisso e um pedido de desculpas de verdade. Na prática:

  • Terminar o caso de verdade. Gordon e colegas observaram que, quando o contato com a terceira pessoa continua, quem foi traído se machuca de novo e o casal perde o pouco que avançou. Se você trabalha com essa pessoa, ou se ela insiste em te procurar, combinem como você vai avisar sempre que houver contato.
  • Ser transparente por um tempo. Avisar onde está, atender quando o outro liga, não esconder o celular. Para os mesmos autores, esses combinados não seriam comuns numa relação, mas ajudam quem foi traído a se sentir em segurança de novo.
  • Responder às perguntas. Quem foi traído costuma precisar entender o que aconteceu. Responda com honestidade, mesmo quando a pergunta se repete. Vale combinar até onde vão os detalhes, porque algumas respostas ajudam a entender e outras só deixam imagens que não saem da cabeça.
  • Pedir desculpas sem “mas”. “Eu errei e sei o quanto te machuquei” ajuda. “Eu errei, mas você também andava distante” não ajuda, mesmo que a distância seja real.
  • Ouvir a raiva do outro. Ela vai aparecer muitas vezes, às vezes do nada. Ficar ali sem se defender a cada frase faz parte. Ouvir a raiva não é aceitar xingamento, ameaça ou agressão.

O que não ajuda

  • Cobrar o perdão: “Já pedi desculpas, até quando você vai ficar assim?”
  • Botar a culpa na pessoa que foi traída.
  • Contar a verdade em conta-gotas. Cada nova descoberta costuma doer quase como a primeira.
  • Fingir que nada aconteceu para manter a paz em casa.
  • Para quem foi traído: fazer a outra pessoa pagar para sempre. Os autores lembram que abrir mão de punir faz parte do perdão. Isso não significa esquecer.
  • Transformar todo mundo em juiz. Ter com quem desabafar ajuda, mas os autores sugerem pensar bem no que contar e para quem. Quem convive com as consequências da decisão são vocês dois.

Quanto tempo leva para perdoar uma traição?

Não existe um prazo confiável. Varia de pessoa para pessoa e de casal para casal. Baucom e colegas observam que uma traição com envolvimento emocional e sexual costuma levar mais tempo para ser superada do que uma traição só sexual ou só emocional. Nos estudos desse grupo, a terapia podia ter até 26 sessões. Esse número era o limite de sessões do estudo. Ele não diz quanto tempo leva para perdoar.

Desconfie de quem promete que “em seis meses passa”. Quando melhora, costuma ser aos poucos, com dias bons e ruins misturados.

Quando procurar terapia de casal

Uma traição é um dos motivos mais comuns para procurar terapia de casal, e, segundo Gordon e colegas, a maioria dos terapeutas a considera um dos problemas mais difíceis de tratar. Vale procurar um psicólogo que atenda casais quando:

  • as brigas sobre a traição tomam conta do dia e vocês não conseguem parar sozinhos;
  • vocês não conseguem conversar sem que um dos dois se feche ou exploda;
  • quem foi traído não dorme, não come ou não consegue trabalhar direito;
  • vocês querem tentar, mas não sabem por onde começar.

Num estudo com 134 casais em terapia, 19 tinham passado por uma traição. Eles começaram o tratamento mais abalados que os outros, mas os casais em que a traição foi revelada antes ou durante a terapia viram a satisfação com a relação melhorar mais do que a dos outros casais. O grupo era pequeno, então é um sinal animador, mas não dá para prometer nada.

Quando não é o momento de perdoar

  • Se a traição continua. Gordon e colegas dizem que, enquanto houver envolvimento com a outra pessoa, emocional ou físico, o casal não consegue recuperar a estabilidade nem avaliar se dá para voltar a confiar.
  • Se há violência. Se você sofre agressão, ameaça ou controle, o foco é a sua segurança, e não salvar a relação. Terapia de casal não é indicada nesses casos.
  • Se a traição se repete. Os autores observam que, quando já houve outras traições, as promessas soam vazias. É justo você se perguntar se vale correr esse risco de novo.

Perguntas para fazer um ao outro, quando os dois estiverem prontos

  • O que eu posso fazer nos próximos meses para te ajudar a confiar em mim de novo?
  • Quais perguntas você ainda quer fazer? E quais detalhes você prefere não saber?
  • Como a gente faz quando uma lembrança bate do nada?
  • Como você via a nossa relação antes disso, e o que a gente quer mudar?

Conversar com outro casal que já passou por isso

No Venna, vocês dois conversam por uma hora, por voz, com outro casal que está vivendo algo parecido ou que já passou por isso. Confiança é um dos temas que vocês podem escolher no app. O app faz as perguntas e dá a vez para cada um falar. Ninguém usa o nome verdadeiro, e a sessão só acontece se os quatro toparem. Cada casal conta o que viveu, em vez de dar conselho. Nada é gravado, a não ser que os quatro escolham uma sessão gravada com um casal experiente, e nenhuma IA escuta.

O Venna não é terapia e não serve para uma traição que ainda está acontecendo ou para situações de violência. Se você é mulher e está sofrendo violência no relacionamento, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, todos os dias. Também dá para falar pelo WhatsApp (61) 9610⁠-⁠0180. Em emergência, ligue 190. Se você é homem ou LGBTQIA+ e sofre violência, o 190 vale para você também, e pessoas LGBTQIA+ podem denunciar pelo Disque 100, gratuito e 24 horas. Se você está pensando em suicídio, ou alguém próximo está, ligue 188, do CVV: o atendimento é 24 horas e sem custo de ligação.

Fontes

Perguntas frequentes

Preciso decidir logo se perdoo ou termino?

Não. Logo depois de descobrir, quem foi traído costuma passar de um sentimento a outro, como raiva, vergonha e tristeza, e os pesquisadores comparam essa reação à de um trauma. Nessa primeira fase, eles recomendam cuidar de si: comer, dormir, ter com quem conversar. A decisão pode vir depois.

Dá para perdoar a traição e mesmo assim terminar?

Dá. Gordon, Baucom e Snyder escrevem que o perdão não exige reconciliação. Tem casal que passa por todo o processo e decide se separar, só que com menos raiva um do outro.

Quanto tempo leva para superar uma traição?

Não existe um prazo confiável, e varia de pessoa para pessoa. Baucom e colegas observam que uma traição com envolvimento emocional e sexual costuma levar mais tempo para ser superada do que uma só sexual ou só emocional. Quando melhora, costuma ser aos poucos, com dias bons e ruins misturados.

O que quem traiu pode fazer para reconquistar a confiança?

Terminar o caso de verdade, ser transparente por um tempo, responder às perguntas com honestidade e pedir desculpas sem “mas”. Também faz parte ouvir a raiva do outro sem se defender a cada frase, o que não inclui aceitar xingamento, ameaça ou agressão. A confiança volta com o que a pessoa faz, repetido ao longo do tempo.

O que atrapalha o perdão depois de uma traição?

Cobrar o perdão, botar a culpa em quem foi traído, contar a verdade em conta-gotas e fingir que nada aconteceu. Para quem foi traído, fazer o outro pagar para sempre também trava o processo. Transformar todo mundo em juiz costuma piorar, porque quem convive com a decisão são vocês dois.

Terapia de casal ajuda depois de uma traição?

Vale procurar um psicólogo que atenda casais quando as brigas tomam conta do dia, quando vocês não conseguem conversar sem que um se feche ou exploda, ou quando querem tentar e não sabem por onde começar. Num estudo com 134 casais em terapia, os 19 que tinham passado por uma traição começaram mais abalados, mas, quando a traição foi revelada antes ou durante a terapia, a satisfação melhorou mais. O grupo era pequeno, então não dá para prometer nada.

Quando não é hora de perdoar?

Quando a traição continua, quando há violência ou quando a traição se repete. Enquanto houver envolvimento com a outra pessoa, o casal não consegue recuperar a estabilidade. Se você é mulher e sofre violência no relacionamento, ligue 180: é gratuito e funciona 24 horas, todos os dias, e em emergência ligue 190.

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