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História de casal

“Eu não queria ser a mãe dele. Queria ser a mulher dele.”

Crise no casamento: a história de Juliana e Rafael, e o que ajuda a passar por ela

Crise no casamento: um casal de BH conta, cada um na sua vez, como a crise começou e o que ajudou. Sinais de alerta e quando procurar terapia de casal.

Escrito pela equipe do Venna Atualizado em · 8 min de leitura
Casados
Há 11 anos
Filhos
Dois, de 7 e 3 anos
Onde
Belo Horizonte
Desde então
Um ano e pouco

História ilustrativa: nomes e detalhes inventados a partir de situações comuns.

No caso de Juliana e Rafael, a crise foi se formando com contas atrasadas, cansaço, filho pequeno e conversas que viram cobrança. Eles moram em Belo Horizonte, estão casados há 11 anos e têm dois filhos, o Davi, de 7, e a Lia, de 3. Eles contam, cada um na sua vez, como o casamento entrou em crise e o que ajudou os dois a voltar a conversar. Depois da história, juntamos o que as pesquisas dizem, os sinais de que vale buscar ajuda de fora e perguntas para os dois conversarem.

Como a crise foi chegando

Rafael: Eu fui demitido em março, junto com metade do setor. Resolvi abrir um negócio de manutenção de ar-condicionado com um amigo. No papel, fazia sentido. Na prática, tinha mês que entrava dinheiro e mês que não entrava nada. Eu chegava em casa e não queria falar disso, porque toda conversa sobre dinheiro terminava com a Juliana fazendo conta na minha frente.

Juliana: Eu fazia conta porque alguém tinha que fazer. Eu trabalho no administrativo de um hospital, em escala, e o meu salário virou o fixo da casa. Escola do Davi, creche da Lia, condomínio, mercado. Eu sentia que estava carregando tudo sozinha e que ele estava brincando de empresário. Comecei a falar com ele de um jeito que eu mesma não reconhecia. “Você nunca pensa na gente.” “Você sempre deixa pra mim.”

Rafael: E eu parei de responder. Ela começava, eu pegava o celular. Ela subia o tom, eu ia lavar louça. Achava que estava evitando briga.

Juliana: Não estava. Ficar falando sozinha me deixava com mais raiva ainda. Teve uma época em que eu revirava os olhos para qualquer coisa que ele dizia. A gente dormia na mesma cama, mas cada um virado para um lado, e o assunto entre nós era só quem buscava quem na escola.

O ponto de virada

Juliana: Foi num domingo, indo para o almoço na casa da minha mãe, em Sete Lagoas. A gente brigou no carro por causa de um boleto, baixinho, achando que as crianças estavam dormindo. O Davi não estava. Ele perguntou: “Vocês vão separar igual aos pais do Pedro?”. Ninguém respondeu. Eu passei o almoço inteiro com aquilo na cabeça.

Rafael: Naquela noite ela me disse que tinha pesquisado advogado. Não disse que ia procurar. Disse que já tinha pesquisado. Eu levei um susto. Eu sabia que a coisa estava ruim, mas achava que era fase. Ali eu entendi que ela já estava pensando em ir embora e que o meu silêncio tinha muito a ver com isso.

Juliana: Eu também disse uma coisa que estava engasgada fazia meses: que eu não queria ser a mãe dele. Queria ser a mulher dele.

O que ajudou

Rafael: A primeira coisa foi combinar uma pausa de verdade. Quando eu sinto que vou travar, falo “preciso de vinte minutos”, saio para dar uma volta no quarteirão e volto. Antes eu simplesmente sumia. Agora ela sabe que eu volto.

Juliana: Eu tive que mudar o jeito de começar. Em vez de “você nunca paga nada em dia”, aprendi a dizer “estou com medo de não fechar o mês, dá para a gente olhar junto?”. Parece bobo, mas a conversa vai para outro lugar.

Rafael: A gente criou o domingo do dinheiro. Domingo à noite, depois que as crianças dormem, meia hora com a planilha aberta. Eu mostro o que entrou na empresa, ela mostra as contas. Fora desse horário, a gente não discute dinheiro, a não ser que seja urgente.

Juliana: E a gente procurou uma psicóloga que atende casais, indicada por uma colega do hospital. Eu achei que ia ser um lugar para provar que eu tinha razão. Não foi. Ela mostrou para a gente que a nossa briga era sempre a mesma, só mudava o assunto.

Rafael: Eu tive que assumir a minha parte sem ficar me defendendo. Por exemplo, admitir que eu deixava a Juliana sozinha com as contas porque tinha vergonha de mostrar que a empresa não ia bem.

Onde eles estão agora

Juliana: Faz um ano e pouco. A gente ainda briga por dinheiro, e acho que sempre vai brigar, porque eu gosto de guardar e ele gosta de arriscar. A diferença é que agora a briga tem começo, meio e fim.

Rafael: A empresa está pagando as contas, mais ou menos. E voltamos a sair só nós dois uma vez por mês, nem que seja para comer um pastel na feira. Não está tudo resolvido, mas as decisões voltaram a ser dos dois.

O que dizem as pesquisas sobre a crise no casamento

O psicólogo norte-americano John Gottman estuda há décadas o jeito como os casais brigam. O Gottman Institute descreve quatro comportamentos que podem prever o fim de uma relação, os chamados Quatro Cavaleiros: crítica (atacar a pessoa, e não o problema), desprezo, postura defensiva e o silêncio de quem se fecha e para de responder. Segundo o instituto, o desprezo é o maior sinal de que o casamento pode acabar. Na história, a Juliana revirando os olhos e o Rafael pegando o celular para não responder são exemplos desses comportamentos. Quando alguém se fecha no meio da briga, isso é diferente de dar a lei do gelo, quando o silêncio vira castigo. Já falamos da lei do gelo em outro texto.

O começo da conversa também pesa. Num estudo publicado em 1999, Sybil Carrère e John Gottman filmaram 124 casais recém-casados discutindo um conflito. Ao longo de seis anos, 17 se divorciaram. Só com os três primeiros minutos da conversa, os pesquisadores conseguiram prever quais casais tinham mais chance de se separar: os que se divorciaram mostravam mais emoções negativas e menos positivas logo no começo da discussão.

Para cada cavaleiro, o instituto sugere um antídoto. Contra a crítica, começar a conversa com calma, falando do que você sente e do que precisa. Contra o desprezo, criar o hábito de agradecer e mostrar respeito. Contra a postura defensiva, assumir a responsabilidade, nem que seja por uma parte do conflito. Contra o silêncio, fazer uma pausa de pelo menos 20 minutos e usar esse tempo para se acalmar, e não para ensaiar a resposta.

O Gottman Institute também afirma que cerca de dois terços dos problemas de um casal são permanentes, porque vêm de diferenças de personalidade e de estilo de vida. Nesses casos, a meta é conseguir conversar sobre o assunto sem travar, mesmo sem resolver de vez. É o caso de Juliana e Rafael com o dinheiro.

Essas pesquisas foram feitas nos Estados Unidos, com casais americanos.

Sinais de que a crise precisa de ajuda de fora

Uma fase difícil não quer dizer que o casamento acabou, e nem todo casamento em crise precisa de ajuda profissional. Mas alguns sinais mostram que talvez vocês não consigam sair dessa sozinhos:

  • As brigas são sempre as mesmas e terminam do mesmo jeito, sem nada resolvido.
  • Um dos dois sente desprezo pelo outro, com deboche, ironia ou revirando os olhos.
  • Vocês quase só conversam sobre contas e tarefas da casa.
  • Um dos dois já pensa em separação, mesmo sem ter falado.
  • Teve traição, ou um segredo grande, e a confiança não volta.
  • Se vocês têm filhos, eles já percebem e perguntam.

Quando procurar terapia de casal

Vocês não precisam estar à beira da separação. Se reconheceram alguns desses sinais, uma terapia de casal pode ajudar os dois a enxergar a briga que se repete. No nosso guia explicamos como funciona, como conferir o registro do psicólogo e onde há atendimento gratuito.

Mas há um limite: se um dos dois agride o outro, com violência física, ameaças, humilhação ou controle, terapia de casal não é o caminho. Comece pela ajuda individual e pelos serviços de proteção listados no fim deste texto.

Perguntas para vocês dois

Escolham um momento calmo, sem pressa e sem ninguém por perto, e respondam um de cada vez.

  1. Quando você percebeu que a gente não estava bem?
  2. Qual é a briga que a gente sempre tem, mesmo quando o assunto muda?
  3. O que eu faço que te dá vontade de se fechar?
  4. Quando você precisa de uma pausa, como quer me avisar?
  5. Do que você sente falta do nosso começo?
  6. O que você precisa de mim para voltar a sentir que somos um time?

Conversar com um casal que já passou por isso

No Venna, vocês dois conversam por uma hora, por voz, com outro casal que está vivendo algo parecido ou que já passou por isso. Vocês escolhem um tema, como comunicação, dinheiro ou confiança. Ninguém usa o nome verdadeiro, e a sessão só acontece se os quatro toparem. O app faz as perguntas e dá a vez para cada um falar. Cada casal conta o que viveu, em vez de dar conselho. Nada é gravado, a não ser que os quatro escolham uma sessão gravada com um casal experiente, e nenhuma IA escuta.

O Venna não é terapia. Se você é mulher e está sofrendo violência no relacionamento, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, todos os dias. Também dá para falar pelo WhatsApp (61) 9610⁠-⁠0180. Em emergência, ligue 190. Se você é homem ou LGBTQIA+ e sofre violência, o 190 vale para você também, e pessoas LGBTQIA+ podem denunciar pelo Disque 100, gratuito e 24 horas. Se você está pensando em suicídio, ou alguém próximo está, ligue 188, do CVV: o atendimento é 24 horas e sem custo de ligação.

Fontes

Perguntas frequentes

Quais são os sinais de que o casamento está em crise?

As brigas são sempre as mesmas e terminam sem nada resolvido. Um dos dois trata o outro com deboche, ironia ou revirando os olhos. Vocês quase só conversam sobre contas e tarefas da casa, ou um dos dois já pensa em separação, mesmo sem ter falado. Se vocês têm filhos, eles já percebem e perguntam.

O que são os Quatro Cavaleiros de Gottman?

São quatro comportamentos que, segundo o Gottman Institute, podem prever o fim de uma relação: crítica, desprezo, postura defensiva e o silêncio de quem se fecha e para de responder. Para o instituto, o desprezo é o maior sinal de que o casamento pode acabar. As pesquisas foram feitas nos Estados Unidos, com casais americanos.

Como sair de uma crise no casamento?

O Gottman Institute sugere um antídoto para cada comportamento: começar a conversa com calma, falando do que você sente e do que precisa; criar o hábito de agradecer; assumir a sua parte no conflito; e fazer uma pausa de pelo menos 20 minutos quando a briga esquenta, usando esse tempo para se acalmar e não para ensaiar a resposta. Combinar um horário fixo para assuntos difíceis, como dinheiro, também pode ajudar.

Brigar sempre pelo mesmo motivo quer dizer que o casamento acabou?

Não. Segundo o Gottman Institute, cerca de dois terços dos problemas de um casal são permanentes, porque vêm de diferenças de personalidade e de estilo de vida. Nesses casos, a meta é conseguir conversar sobre o assunto sem travar, mesmo sem resolver de vez.

Quando procurar terapia de casal na crise?

Vocês não precisam estar à beira da separação. Se as brigas se repetem sem solução, se há desprezo ou se a confiança não volta depois de uma traição ou de um segredo grande, uma terapia de casal pode ajudar os dois a enxergar a briga que se repete. Se um dos dois agride o outro, com violência física, ameaças, humilhação ou controle, terapia de casal não é o caminho.

E se a crise envolve violência?

Comece pela ajuda individual e pelos serviços de proteção. Se você é mulher e está sofrendo violência no relacionamento, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas, todos os dias, também pelo WhatsApp (61) 9610⁠-⁠0180. Em emergência, ligue 190.

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